quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Recôncavo ganha as telas do cinema com o longa Café com Canela gravado em Cachoeira e São Felix

http://www.fortenoreconcavo.com.br/2017/04/saiba-um-pouco-mais-sobre-clarividencia.html
O Festival de Brasília já teve grandes momentos em sua história. Mais um pode ser acrescentado a partir desta edição, justamente a 50ª, com a divertida, emocionante e inesquecível exibição dois filmes dos Cafundós do Nordeste deixaram a plateia do Cine Brasília extasiada nesta semana. O tom amoroso do curta-metragem alagoano As Melhores Noites de Veroni, de Ulisses Arthur, abriu caminho para a avalanche de afeto do longa-metragem baiano Café com Canela, da dupla Glenda Nicácio e Ary Rosa, que foi aplaudido e recebido com urros nunca antes ouvidos por no festival.

Realizados por jovens cineastas formados pela Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), o curta e o longa-metragem impressionaram o público pela inteligência e leveza de suas narrativas. Com economia e sensibilidade, Ulisses Artur faz de As Melhores Noites de Veroni um cativante retrato de uma dona de casa que, para vencer o descaso do marido caminheiro, se aventura como cantora de música brega. Sem aparentar revanchismo, a personagem, muito bem defendida por Laís Lira, cria uma mundo de várias possibilidades para sua vida, muito além de sua condição Penélope, eternamente à espera do seu Ulisses.

Certamente a providência – e não coincidência – fez com que a sessão de Café com Canela imediatamente se transformasse no outro lado das questões suscitadas pelo longa-metragem Vazante, de Daniela Thomas, exibido na noite do último sábado, que foi acusado de não valorizar o protagonismo da raça negra num filme sobre o passado escravocrata do Brasil. Ao contrário de Vazante, porém, Café com Canela é um filme negro dos pés à cabeça, ou seja, todo o elenco do filme é formado por personagens da cor negra, que têm voz e vez da primeira à última cena. Mas não é por isso que esse filme, feito no interior da Bahia por um grupo de cineastas, técnicos, atores e atrizes que nunca haviam feito um longa-metragem antes, se torna um evento tão particular.

O que faz de Café com Canela tão surpreendente é o frescor de sua linguagem, a vivacidade dos diálogos e a sem cerimônia em contar uma história de uma maneira livre e sem amarras. A história se desenvolve entre as cidades de Cachoeira e São Félix, que são separadas por um rio, no Recôncavo Baiano. Com grande criatividade e uma graça tocante, Ary Rosa e Glenda Nicácio cruzam a história de duas mulheres negras, marcadas pela dor da perda, que pelo afeto vão dar um novo rumo às suas vidas.

Margarida (Valdineia Soriano) vive fechada em casa, sem saber como vencer a dor de ter perdido um filho pequeno, enquanto a órfã Violeta (Aline Brunne) se desdobra para cuidar dos filhos, da avó e do casamento, fritando coxinhas para vender em bares, até o dia em que, por acaso, elas se reencontram. Violenta vai relembrar que Margarida foi sua professora e que ela teve um importante papel em sua vida.

“Por que hoje, em 2017, o cinema nacional bombando, mil produções em todas as partes do País, fica tão desnorteado quando aparece um filme com um elenco todo negro, falando de subjetividade? Por que está todo mundo chocado? Outro dia me disseram que o filme falava de preconceito. Não, o filme não fala de preconceito, fala de encontros e de afeto. Quando eu estou com um microfone, eu quero falar sobre essas pessoas, quero que elas se sintam representadas”, afirmou Glenda Nicácio, durante o debate na manhã de ontem.


HUMOR BAIANO

Durante a projeção, os espectadores do Cine Brasília só faltaram cair das poltronas, de tanto rir com as situações do filme e os diálogos dos personagens, especialmente de Cidão (Arlete Dias), que rouba todas as cenas com seu linguajar peculiar e cheio de expressões populares. Mas o filme traz muitas outras surpresas, que deixaram os cinéfilos sem ação, entre elas a participação do ator Babu Santana, muito conhecido pelo papéis violentos em filmes e novelas, que faz um médico gay.

Uma cena, em particular, deixou os cinéfilos de queixo caído: sem nenhuma preparação, Ary e Glenda fizeram um plano subjetivo do cachorro Felipe, que pertence a Babu e seu companheiro. A câmera, arfante como um cão, corre em direção ao personagem de Babu, que dá um leve toque na sua cabeça. Quando o público percebeu a ousadia, o Cinema Brasília foi uma alegria só.

Além de todo o calor o humano que o filme provoca, a narrativa cheia de brincadeiras de Café com Canela trouxe uma lufada de novidade entre os filmes da Mostra Competitiva de Longas-Metragens. Pela recepção do público e da crítica, o representante da Bahia já tomou uma dianteira na conquista dos Candangos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário