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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Coronavírus: Conheça Anna Nery, a baiana pioneira da enfermagem no Brasil

O Brasil está em guerra contra um inimigo invisível, o coronavírus. Milhares de enfermeiras, enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem estão na linha de frente do combate a este adversário, colocando suas vidas em risco para salvar tantas outras. Há mais de 150 anos, uma corajosa mulher baiana de 50 anos, chamada Anna Nery, fazia um apelo para também poder servir e cuidar de outros brasileiros numa outra guerra, a do Paraguai. Sua trajetória a fez ficar conhecida como a pioneira da enfermagem no país.

“Como brasileira não podendo ser indiferente aos sofrimentos de meus compatriotas e como mãe, não podendo resistir à separação dos objetos que me são caros, e por uma tão longa distância, desejava acompanhá-los por toda parte, mesmo no teatro da guerra, se isso me fosse permitido”, escreveu Anna Nery ao presidente da província da Bahia, Manoel Pinto de Souza Dantas, em agosto de 1865.

Ela desejava acompanhar os filhos, que haviam partido para a Guerra do Paraguai em janeiro e maio daquele mesmo ano. A guerra tinha começado no final de 1864 e se estenderia até 1870. Anna se ofereceu para servir os “feridos de guerra.”

Vinda de uma família abastada, viúva e irmã de militares, Anna tinha influência e teve seu apelo rapidamente atendido. Poucos dias depois, foi expedida a ordem para que ela fosse contratada como enfermeira para auxiliar o corpo de saúde do Exército Brasileiro e ela embarcou em um navio em Salvador, a caminho do Rio Grande do Sul.

Ela permaneceu atendendo feridos e doentes durante o conflito da Guerra do Paraguai até 1870. Nos anos seguintes, recebeu inúmeras homenagens e condecorações pelos serviços prestados, inclusive do imperador Dom Pedro II. O trabalho lhe rendeu o título de “mãe dos brasileiros.”

A história de Anna Justina Ferreira Nery está documentada no Museu Nacional da Enfermagem, fundado em 2010 pelo Conselho Federal de Enfermagem em Salvador, na Bahia.

Anna nasceu em 13 de dezembro de 1814 em Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Filha de pais portugueses, ela se casou aos 23 anos com o oficial da Marinha Isidoro Antônio Neri, em 1838. Seis anos depois, ficou viúva.

Quando a guerra começou, em 1864, Anna morava em Salvador com os filhos Justiniano, Isidoro Antônio e Pedro Antônio. Os três embarcaram para a guerra em maio do ano seguinte. Em agosto, Anna decidiu que também iria.

— Ela não era totalmente leiga. Tinha irmão e filho médico. Era culta, de uma família abastada. Quando chegou ao Rio Grande do Sul, recebeu treinamento das irmãs vicentinas e depois prestou serviços em Salto e Corrientes, na Argentina, e depois em Humaitá e Assunção, no Paraguai — conta Maria Júlia Lemos, enfermeira e diretora do Museu Nacional da Enfermagem.

Anna foi fundamental durante a guerra, conta a enfermeira. Na época, doenças como cólera, febre tifoide, disenteria, malária e varíola ameaçavam a saúde dos soldados. Mas Anna conseguiu transformar a realidade sanitária dos locais onde trabalhava, impondo condições mínimas de higiene para que essas doenças não se alastrassem e para que feridas fossem tratadas com segurança.

Ela organizou os hospitais de campanha, criou métodos para as tarefas em busca da eficácia, e tratou de forma humanizada tantos os combatentes da Tríplice Aliança — Brasil, Argentina e Uruguai — quanto os soldados do Paraguai, fato gerou críticas por parte do Comando do Exército Brasileiro, mas que não a impediu de continuar seu trabalho. Seus maiores legados, explica Maria Júlia, são a perseverança, a organização sistemática e a humanização do cuidado dos doentes.

Anna Nery foi reconhecida em vida, mas seguiu sendo homenageada após a sua morte, em 1880, no Rio de Janeiro.

— A trajetória de Anna Nery é similar a de Florence Nightingale, a inglesa que consolidou seu trabalho de cuidado na Guerra da Crimeia e fundou a enfermagem moderna no século XIX. Por essa semelhança, quando a primeira escola de enfermagem foi criada no Brasil, em 1923, ela recebeu o nome de Anna Nery — explica Carla Araújo, diretora da Escola de Enfermagem Anna Nery, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A escola trouxe para o Brasil o modelo de ensino de enfermagem científica criado na Inglaterra. Hoje, quase 100 anos depois, a Escola de Enfermagem Anna Nery forma cerca de 140 profissionais por ano.
Em Salvador, um hospital referência por todo estado, fundado em 1964 leva o nome desta importante baiana. O Hospital Anna Nery oferece tratamento humanitário a pacientes com doenças em áreas de cardiologia, nefrologia, cirurgia vascular e transplantes. O hospital traz em sua vocação a atenção para a alta complexidade. Todos os procedimentos realizados no Hospital Anna Nery são exclusivamente custeados pelo SUS, sendo um hospital de gestão pública, fortalecido pelo convênio entre a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA), através de sua Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão (FAPEX).

Assim, o hospital contribui para a formação de recursos humanos, cada vez mais engajados no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).

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