A decisão do Campeonato Municipal de Sapeaçu, no interior da Bahia, acabou marcada por momentos de tensão e violência no último domingo (26). A partida entre Lagoinha e Bebê Água teve a atenção desviada do gramado após o árbitro José Lourenço Assis dos Santos, de 43 anos, ser alvo de uma tentativa de agressão por parte de um dos jogadores.
A confusão começou após o juiz consultar o VAR e decidir pela expulsão do atleta Paco, do Lagoinha. Irritado com o cartão vermelho, o jogador partiu para cima do árbitro, tentando desferir socos. Bastante ágil, José Lourenço conseguiu se esquivar dos golpes.
"Foi a primeira vez que passei por algo assim. Na hora tomei um susto, só pensei em fugir dos socos. Mas também treino boxe, capoeira e karatê, na hora o sangue esquenta e você acaba indo para cima", declarou o árbitro. Segundo a organização do torneio, o atleta deve ser suspenso e banido da competição por no mínimo dois anos.
Por conta da confusão, a partida ficou paralisada por 11 minutos. Após uma reavaliação da segurança no local, o jogo foi retomado e concluído. Em campo, o Bebê Água venceu o Lagoinha por 1 a 0 e sagrou-se campeão do torneio.
Do futebol amador à elite do Baianão
Árbitro profissional desde 2010 e integrante do quadro da Federação Bahiana de Futebol (FBF), José Lourenço vive uma realidade distante do futebol amador na maior parte de sua rotina. Somente no Campeonato Baiano deste ano, ele já atuou em seis partidas, incluindo confrontos da dupla Ba-Vi.
"Não sou muito de atuar em amadores, o risco é grande demais. Vou em poucos jogos, aqui na região do Recôncavo, e em cidades onde eu me sinta seguro. Ali foi um fato isolado", explicou. O juiz também analisou as diferenças entre os dois cenários: "A maior diferença entre os ambientes é o respeito, pessoas que entendem mais do futebol, têm mais responsabilidade nas ações. Porém, a intensidade é maior [no profissional], o jogo não para, e o erro é mais caro."
Além da atuação no apito, José Lourenço concilia uma extensa rotina acadêmica e profissional. Funcionário público municipal, ele é formado em Serviço Social e Gestão de Cooperativas, com pós-graduações em ambas as áreas, além de Marketing e Logística. Para manter a forma e o alto rendimento no esporte, ele divide o tempo entre treinos de academia, sessões de fisioterapia e estudos táticos de futebol.
Sua paixão pelo apito veio do pai, João da Conceição, que apitava jogos amadores em Maragogipe. Ex-jogador com passagens por diversas posições no campo — de lateral-esquerdo a goleiro —, José Lourenço migrou para a arbitragem após sofrer uma lesão que o tirou dos gramados como atleta.
Caso vai parar na polícia
Na última quinta-feira (30), o árbitro esteve na Delegacia Territorial de Sapeaçu para registrar o Boletim de Ocorrência contra o agressor. Na sequência, ele se deslocou até Santo Antônio de Jesus para realizar o exame de corpo de delito no Departamento de Polícia Técnica (DPT).
Em desabafo registrado após os trâmites policiais, o árbitro reforçou a importância de combater a violência no esporte:
"Hoje estou saindo aqui da delegacia de Sapeaçu com boletim de ocorrência, com guia para fazer o exame de corpo de delito. Que a justiça seja feita e que sirva de lição para que ninguém mais agride jogadores, companheiros, nem a arbitragem, e nem a arbitragem agredir ninguém. No futebol, o que mais temos que ver é bola na rede, são jogadas bonitas e nunca nenhum tipo de agressão."






Nenhum comentário:
Postar um comentário