terça-feira, 29 de junho de 2021

Mesmo sem energia elétrica em casa, Matheus tira 980 pontos na redação do ENEM e passa em medicina pela UFRB

O jovem morador de Feira de Santana que estudou em uma casa simples, emprestada da amiga, sem energia elétrica e internet, foi aprovado em medicina na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) após quatro anos de preparação.

Matheus de Araújo Moreira Silva, de 25 anos, quase atingiu a nota máxima na prova de redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2020 com 980 pontos. As aulas do tão sonhado curso de medicina já começaram na segunda-feira (28), inicialmente de forma remota.

Para mim foi surreal, foram oito anos fazendo Enem. Há quatro anos que eu tento fazer medicina, então é um bom tempo estudando”, disse o jovem em entrevista.

Matheus de Araújo Moreira Silva fez o processo seletivo da UFRB por quase um mês e agora, com o resultado positivo, o jovem vai realizar o maior sonho: vai ser o primeiro médico da família e da comunidade quilombola à qual faz parte.

Eu só vou acreditar quando passar essa pandemia e eu poder me mudar para Santo Antônio de Jesus, que é onde tem o polo que eu vou fazer medicina”, contou.

Minha família e minha comunidade quilombola de Antônio Cardoso estão super felizes, porque é o primeiro médico da família, então eles estão em êxtase, em festa, por isso tudo, porque eles viram o meu esforço durante esse período todo. Estão muito, muito alegres”.

Com a aprovação desejada, Matheus Silva agora pensa em conseguir formas de se manter no curso e conseguir se formar. A primeira estratégia pensada foi a realização de uma “vaquinha” virtual. Ele também procura um estágio para conseguir uma fonte de renda.

Eu pretendo agora montar uma vaquinha para a manutenção do curso até eu conseguir uma residência universitária e, nesse momento que eu vou ter aulas remotas, quero achar um horário para eu conseguir um estágio, para conseguir um dinheiro e me manter”.

Entretanto, os problemas futuros, embora pensados agora, ficam em segundo plano, quando o jovem lembra que vai lutar para salvar vidas.

Eu estou bastante honrado em poder fazer o curso que eu irei possibilitar mudanças de vida de várias pessoas. É um sonho se concretizando”, afirmou Matheus Silva.

Estudante de escola pública, o jovem sempre desejou estudar medicina desde que concluiu o ensino médio, em 2013.

Em 2015, ele foi aprovado no curso de enfermagem na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Mas, depois de dois anos, trancou a faculdade, o que ele considera uma “uma decisão da vida”, e desde 2018 se dedicou a estudar para passar em medicina.

O jovem, morador de um bairro periférico de Feira de Santana, filho de pais analfabetos, sonhava cursar medicina. Para o vestibular, Matheus precisou superar algumas barreiras.

Matheus estudava na biblioteca municipal da cidade, mas com a pandemia, o local precisou ser fechado. Com isso, ele parou os estudos por um período. Segundo o jovem, em casa, com os pais e mais quatro irmãos, não era possível se concentrar.

Em julho do ano passado, uma amiga de Matheus emprestou uma casa simples para que ele pudesse estudar. Porém, o local não tinha energia elétrica e ventilação adequada. No novo local de estudos, também não havia internet. Ele precisou assinar um pacote de internet pelo celular.

Para o Enem, Matheus estudou sozinho, cerca de seis horas por dia, de segunda a sexta, e também nos finais de semana, por meio de apostilas e videoaulas online.
Ao G1/BA, em abril deste ano, Matheus Silva foi enfático ao ser questionado sobre os planos caso não passe em medicina: “O ano da minha aprovação é esse”.

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